Câmara Municipal de Penela

Intervenção do Presidente da Câmara Municipal, Luís Matias

Caros e Caras Penelenses,
Meus amigos e minhas amigas,
 
Até hoje e o que a minha memória alcança as comemorações do 25 de Abril foram as mais ritualistas, simbólicas e, em algumas circunstâncias, até insossas pela previsibilidade!
 
Enfeitavam-se os salões nobres com cravos! Os participantes e convidados desfilavam aperaltados…um cravo na lapela e a gravata vermelha a condizer...
E de Salão Nobre em Salão Nobre, ano após ano, repetiram-se os jargões e os discursos sobre a Liberdade e a Democracia, da agonia que fora viver na penumbra dos direitos mais elementares. Das Conquistas de Abril e dos Insucessos da Democracia! E do Sonho…o Sonho de Abril que está por cumprir!
Independentemente do local havia um mimetismo, uma espécie de Santíssimo Sacramento da Liberdade que se foi repetindo, obviamente, também em Penela até hoje. O dia 25 de Abril de 2020!
 
Este ano, natural e conscientemente, a celebração do 25 de Abril vai decorrer sem atividades gregárias ou culturais em sala. Este ano por um imperativo de saúde pública e de responsabilidade política utilizamos as janelas digitais para celebrar aquela manhã que há 46 nos curou de um outro vírus, diferente deste que hoje enfrentamos!
Não faz sentido, quando por razões de saúde pública se proíbem cerimónias de homenagem e despedida dos que nos são mais próximos, quando se encerram negócios e obrigamos milhares de portugueses a layoff, incorrer em qualquer risco desnecessário por conta de qualquer efeméride, seja ela qual for!
É uma questão de bom senso, de responsabilidade política e social e de homenagem àqueles que não podem ficar em casa, para que todos os outros possam. São os técnicos de saúde, as forças de segurança, os bombeiros, funcionários das autarquias, das IPSS, funcionários de empresas de distribuição e muitos outros profissionais que arriscam a sua saúde em nome de muitos de nós.
 
Hoje, assinalamos o 46.º aniversário do 25 de Abril. Curiosamente, nestes dias, sentimo-nos diminuídos na nossa liberdade e autodeterminação e em tempo de confinamento obrigatório e de restrições a algumas liberdades individuais torna-se mais sensível recordar e comemorar o bom da liberdade!!! Mas ser livre é, também, ser responsável! Por cada um de Nós e por Todos Nós.
 
Caras e Caros Amigos;
O inimaginável ocorreu, o inesperado concretizou-se, o inacreditável está à nossa frente! Em poucas semanas o nosso Mundo transformou-se! E todos os outros Mundos, mesmo os que não conhecemos, sabemo-lo, também mudaram! O Mundo Parou…ou, pelo menos, Abrandou!!!
Atravessamos um período da história da humanidade que, ainda, ninguém sabe como vai acabar! Vivemos um dos momentos mais particulares da vida do Homem! Todos os países e os Homens estão envolvidos em combater esta pandemia. Não se trata apenas de uma questão de sobrevivência, mas de prioridade! Esta complexa e imprevisível pandemia uniu-nos!
A verdade é que apesar todas as incertezas e temores causados por um inimigo invisível que tem dizimado milhares de homens, mulheres e crianças existe uma centelha de luz e de esperança acalentada pela fraternidade e solidariedade da humanidade! Juntos, vamos conseguir!
 
Voltando à Liberdade e ao 25 de Abril e à transformação em que estamos mergulhados.
A cegueira do moralismo ideológico que nos cega e o estrabismo dos preconceitos políticos estão ameaçados por este vírus que não nos permite esquecer o óbvio.
A revolução em Portugal foi feita para todos os portugueses e as revoluções no mundo foram feitas para todos os Homens. Não apenas para alguns. Não é património ideológico de ninguém! É de todos nós!
 
Em Penela, ao longo destas décadas fizemos, todos juntos, a Prova de Vida do 25 de Abril!!! Hoje de uma janela digital abrimos a porta para ficarmos em casa a comemorar a Liberdade! É diferente daquela manhã em que o Povo saiu à rua!
Este ano não estamos no salão nobre, não estamos juntos fisicamente, não há cravos na lapela ou a decorar o espaço onde não podemos estar! Mas não deixa de ser 25 de Abril!
 
Termino com uma reflexão de António Arnaut, no seu livro Rio de Sombras.
Hoje somos “testemunho de um tempo contraditório e bicéfalo, ora promissor, ora angustiante, em que as águas límpidas do sonho de Abril se transmudaram no lodo do desencanto, embora ainda reste uma nesga de esperança...”.
 
Em nome dessa esperança num futuro melhor e de todos os Penelenses que me orgulho de representar…Obrigado
Viva Penela
Viva Portugal…