Espaço-Museu do Rabaçal : Câmara Municipal de Penela

Foto: pessoa a trabalhar nas escavações
Foto: vsita aérea da villa romana
Foto: pormenor de uma escavação

Campanhas Arqueológicas

Villa romana do Rabaçal - Vinte anos de Campanhas Arqueológicas

Visitámos o sítio arqueológico, em 1979. Fizemo-la na sequência da batida de campo apoiada na bibliografia produzida sobre a carta arqueológica do período romano na área de Conímbriga (ROCHA, 1905; OLEIRO, 1956; ALARCÃO, 1973; PESSOA, 1986).

A situação, no local, em termos de conservação dos vestígios arqueológicos, foi-se então tornando de ano para ano cada vez mais preocupante. Os danos causados nas estruturas soterradas, pelo simples revolvimento desta terra de semeadura e olival, ainda que por métodos de agricultura tradicional, eram evidentes. Proliferavam, após as lavras, à superfície do terreno, pequenos blocos de tesselas de mosaico policromo, fragmentos de placas decorativas em mármore, muita louça comum de mesa ou cozinha e os restos de materiais de construção.

A tomada de consciência desta situação levou a que um grupo de voluntários constituído por arqueólogos, geólogo, técnico de restauro, elementos da população, professores, jovens e mesmo outras pessoas exercendo outras profissões diversas, alguns deles ligados ao Ecomuseu e ao Museu de Conímbriga, fizessem aprovar pelas autoridades, ao nível nacional, um programa de investigação que conduziu à realização, em 1984, das primeiras sondagens (PESSOA, PONTE, 1984).

Cumpre-nos aqui realçar a manifesta boa vontade dos proprietários dos terrenos em preservar a estação arqueológica, ao autorizarem a realização de sondagens e posteriores trabalhos de descoberta em extensão, nestes locais.

Em 1984 havíamos detectado a existência de pavimentos de mosaico com motivos decorativos sem paralelo em Portugal. Foi possível, no ano seguinte, contar com a dinâmica de uma equipa mais alargada e o apoio da autarquia de Penela, do Instituto Português da Juventude, bem como de outras instituições locais, regionais e nacionais. Implantada a quadrícula da área arqueológica os trabalhos desse ano trouxeram à luz do dia um peristilo octogonal de 24 colunas, corredores com plintos decorados de baixo-relevos, mosaicos das estações do ano (Outono e Verão), e ainda materiais cerâmicos e numismáticos datáveis do século IV d. C.

O resultado da campanha de 1986 saldou-se na descoberta de três grandes salas ligadas aos corredores do pórtico do peristilo: um oecus triclinium triabsidado a oeste, uma sala a sudoeste e uma terceira a noroeste. Apenas as duas primeiras são decoradas com mosaico. Foi então detectada uma grande variedade de placas de mármore com baixo-relevos e friso jónico em calcário, os quais decoravam as paredes do triclínio.

A principal conclusão da campanha de 1987 foi a detecção de vestígios arqueológicos a cerca de 200 metros da zona residencial, na extremidade da villa rústica. Na villa urbana ou residência senhorial foram então descobertas as seguintes figuras nos mosaicos: alegoria da Primavera e o Inverno bem como o painel da Quadriga Vencedora no corredor oeste do peristilo; figura feminina sentada no centro do triclínio e demais bustos nos cantos da cercadura deste painel. Foi ainda avaliado o grau de destruição do pavimento de mosaico da sala contígua ao corredor sudoeste do peristilo sobre o qual foram instaladas doze sepulturas, possivelmente, no século XVI.

As paredes de largas dimensões descobertas no topo norte da Villa urbana na campanha de 1988 interpretámo-las como pertencendo a um edifício de culto, capela palatina de planta quadrabsidada. Ficou também descoberta neste ano a torre octogonal que ajuda a destacar o conjunto da entrada da villa a sul. A estação é finalmente salvaguardada através da compra dos primeiros terrenos pela autarquia de Penela.

Em 1989 foi localizado, na área rústica, o primeiro tesouro de moedas do século IV d.C. No final desta campanha foi possível reconstruir em desenho toda a composição de motivos lineares e de superfície dos pavimentos de mosaico policromo da área urbana. São adquiridos novos terrenos da área residencial pelo município e é proposta a aquisição de terrenos na pars rustica. Foi entregue então ao I.P.P.A.R. um conjunto de documentos com a definição da área arqueológica, zona de protecção e planta cadastral bem como outros elementos indispensáveis que justificam a nossa proposta de classificação desta estação como monumento nacional.

O levantamento de um grande número de bermas ou banquetes, em 1990, sobre o triclínio, sala a sudoeste e corredores do peristilo, permitiu documentar, em pormenor, toda a construção e iniciar trabalhos de consolidação de estruturas.

Foi descoberta, em 1991, toda a área central do peristilo (impluvium), estufa do triclinium e respectivo tanque de recolha e abastecimento de água. Para o efeito foi indispensável o levantamento de sete oliveiras que se encontravam plantadas nesta área. O estudo da colecção numismática até então reunida, revelou-nos um abastecimento monetário de meados e finais do século IV e início do século V d.C., tanto de centros emissores ocidentais (Arles, Roma, Siscia e Lugdunum) como orientais (Constantinopla). O maior número de numismas desta colecção é cunhado em Arles - o centro emissor mais próximo, nesta época, da província Lusitânia.

Com o levantamento das bermas e de sete oliveiras na área sul da residência, em 1992, ficaram esclarecidos pormenores do conjunto da entrada composta pela torre octogonal, corredor, vestíbulo, portaria e sala contígua ao corredor sudeste. Ficou ainda conhecida a complexidade decorativa dos revestimentos do triclínio.

Os trabalhos de 1993 deram a conhecer em detalhe a construção quadriabsidada na área norte da pars urbana em ligação com o corredor noroeste do peristilo.

O prolongamento em 1994, ainda mais para norte, da escavação da área urbana revelou-se novos dados estratigráficos, facto este associado à concentração nesta zona de uma maior potência de terras. O estrato interpretado como sendo contemporâneo do nivelamento do terreno para implantação da construção romana revelou-nos um numisma de Constâncio II datado de 341-346 d.C., o qual deve ser considerado como terminus ante quem. A longa duração do uso da moeda de bronze, nesta época, leva-nos a propor a 2ª metade do século IV d.C. como data provável para esta instalação.

Implantada a quadrícula arqueológica da pars rustica na campanha de 1996, foi possível, a partir das estruturas detectadas, determinar o tipo das instalações descobertas bem como constatar ainda o seu estado de conservação. As edificações no topo noroeste, na cota mais elevada, da área escavada apresentam vários tipos de pavimento (opus signinum, laje fina, laje grossa, calhau fracturado), uma lareira, canalizações, muros e paredes de diversas espessuras. A grande quantidade e variedade de testemunhos de materiais de construção, descoberto no topo sul da área estudada neste mesmo ano, levou-nos a colocar a hipótese de estarmos numa zona contígua a uma construção mais elaborada. Junto ao valado, existe a mais importante linha de água no local aproveitada ainda nos nossos dias para a rega, através de noras.

Esta área escava, em 1997, veio a revelar um importante conjunto de estruturas de construção em alvenaria e cilharia, canalizações, tanques revestidos por opus signinum, bem como pavimentos suspensos em arcos, que identificámos como fazendo parte do balneário da villa.

Como preceitua Vitrúvio, no século I a.C., acerca da disposição e partes dos banhos (De Architectura, Cap. 11, trad. A. Blánquez, Madrid, 1954, p. 130-131), a separação e o afastamento desta unidade, para funcionamento de fornalhas com fogo de lenha, ligadas a sistemas de aquecimento de ar, água e pavimentos, das outras construções (área residencial e área rústica), cumpre uma das normas fundamentais de segurança na prevenção contra incêndios; a sua localização a norte da villa urbana, evita que esta fonte de calor concorra com a outra fixa da natureza, o sol, a sul, para o aumento de temperatura no interior da residência; a orientação da boca da fornalha para sul protege esta abertura dos ventos dominantes de norte. Foram ainda registados os sistemas de ar quente tanto nas paredes como na cúpula do edifício.

Cumpre-nos salientar que, à semelhança do que aconteceu na escavação da área urbana, os pequenos proprietários locais, autorizaram prontamente a realização dos trabalhos arqueológicos exploratórios nos seus terrenos. Sem esta compreensão nada teria sido possível. A participação com entusiasmo e espírito de sacrifício de centenas de jovens nacionais e estrangeiros, da equipa técnica, da população do Rabaçal e da autarquia de Penela têm-se revelado, de igual modo, determinantes para o alcance de resultados concretos.

Os estudos em curso são um factor de auto-estima para todos os participantes, colaboradores e os demais interessados, sendo de significativo interesse para avaliar a diversidade e riqueza do património cultural do município de Penela. Vão ao encontro da necessidade de valorização da relação cidade/campo, também indissociável em qualquer momento da investigação. Servem, igualmente, para um melhor entendimento da ocupação romana na região, nomeadamente para avaliar o papel das villae na civitas de Conímbriga, em época tardo-romana (PESSOA, 1998, p. 55-60).